Luta Livre, uma arte cercada por egos… “o último a sair apaga a luz”

Desde muito cedo me vi inserido nesse mundo, o mundo da Luta Livre, ou mais conhecido por muitos como “telecatch” devido a fama que ganhou no final da década de 60 e início de 70. Filho de artista desse tipo de show, que começou a sua carreira ainda com 16 anos em Porto Alegre, no extinto Ringuedoze, um programa de lutas de grande repercussão na época transmitido pela TV Gaúcha, Canal 12, atual RBS, filiada a Rede Globo de Televisão. Muitos anos após esse auge, encontrava-me viajando com meu pai para eventos de Luta Livre pelo interior e litoral do Rio Grande do Sul, na época já beirando os 10 anos de idade, mais ou menos.

Conviver com aquela atmosfera do show era fantástico. O som dos ginásios ecoando vozes, o som do tablado na queda de um lutador sobre ele, ecoava por todo o ginásio e aquilo marcou a minha infância, era mágico. Ver aqueles homens enormes praticamente se matando sobre o ringue e momentos depois vê-los abraçados, rindo e se divertindo era algo que aos poucos a minha mentalidade de criança ia tentando entender, aliado as explicações do meu pai de como aquilo funcionava.

No final da década de 80, meu pai resolveu afastar-se de vez da Luta Livre, e eu nunca tinha entendido o por que daquilo, pois era algo que aparentemente ele gostava tanto, e eu tendo praticamente crescido naquele meio, obviamente sonhava em ser também um artista de Luta Livre, minha brincadeira preferida com os amigos e até mesmo com os amigos imaginários era Luta Livre, mas ele afastou-se, e estranhamente nunca fez nenhuma questão que eu me aproximasse desse mundo, nunca incentivou que os filhos se tornassem lutadores, ou no termo mais correto, artistas de Luta Livre, porque podem existir e existem alguns artistas de Luta Livre que realmente sejam também lutadores de alguma modalidade, mas não necessariamente artistas de Luta Livre são lutadores, são artistas.

E assim nos mantivemos por muitos anos, longe e afastados desse mundo da Luta Livre, até um certo dia quando encontro no Youtube um vídeo de uma luta, em um ringue simples, num ginásio entre dois lutadores, de um lado a Caveira Maldita Killinger e do outro O Super Garoto Sonic, e que chamou-se muito a atenção, ao ponto de eu mostrar esse vídeo para meu pai. Á partir dali, acabamos seguindo o rumo de nos reaproximarmos desse mundo. Acabei escrevendo para um blog de Luta Livre sobre Luta Livre Nacional, e após um tempo deixei esse blog e criei juntamente com meu irmão mais novo um blog somente sobre Luta Livre Nacional, onde tínhamos a meta de divulgar a nossa Luta Livre, mostrar os trabalhos de todos para que cada vez mais o público atual que acreditava existir ainda essa modalidade somente fora do Brasil, pudesse ver que no nosso país ainda temos esse tipo de show, e esse projeto chamado TelecatchBrazil.com deu muito certo. Foi mais de um ano com acessos altíssimos ao blog, gravamos podcasts, fizemos entrevistas e até promoções, mas aos poucos, eu fui entendendo o real motivo de nosso pai ter preferido manter os filhos longe desse mundo.

Uma arte cercada por egos

Os egos dos líderes de algumas equipes foram se inflando. Como uma das equipes divulgadas no nosso blog produzia muito material para ser divulgado, vídeos semanais, entrevistas, as demais equipes começaram a julgar que havia um preferencialismo de nossa parte e que dávamos muito destaque para aquela equipe em detrimento da sua, e aí a confusão começou. Começaram as acusações de vantagens para uma, de desprezo para outra, e nisso com os egos nas alturas vieram as grosserias, as acusações, as raivas e rancores. Empresário que era sempre cortês e educado, passou a negar informação, passou a desmerecer o trabalho do blog, até chegar a uma condição insustentável de diálogo e convivência. E assim acabou acontecendo com outros, e estranhamente nunca aconteceu o mesmo com uma das equipes, diga-se de passagem, a única delas que sempre soube trabalhar com internet, com divulgação dos seus trabalhos em blog e afins.

O tempo passou, e em maio de 2012 vi com meus olhos o que sempre sonhei para meu pai, um encerramento de carreira artística digna, que muitos de seus colegas de época não tiveram a honra de ter. Em plena Praça da Sé, em São Paulo, num dos maiores eventos da Prefeitura daquela cidade, a Virada Cultural, o personagem Cigano Stiner vivido pelo meu, pai fez sua despedida em grande estilo com excelentes profissionais em um evento de Luta Livre internacional promovido pela BWF (Brazilian Wrestling Federation), uma federação de Luta Livre criada em 2004, por Bob Junior, um dos mais competentes profissionais desse meio, e por quem guardo profundo respeito e admiração pelo resto da minha vida, e não somente por esse episódio, mas pela postura que já teve comigo mesmo em momentos em que discordamos, pois um homem de verdade você conhece nas discordâncias e não quando um bate no ombro do outro.

Fiz outros amigos que levo para a vida, mas não vou citar a todos aqui, não para não correr o risco de esquecer alguém, porque são poucos, minhas amizades sempre foram muito seletas, mas porque eles sabem quem são.

Resumo desse texto, creio que seja, para chegar a conclusão que meu pai chegou a muitos anos atrás e que eu a pouco tempo fui entender. Nesse mundo da Luta Livre, vale muito o que o público recebe, o show, as luzes, o espetáculo. Viver o por trás das câmeras não trás esse mesmo glamour, muito pelo contrário, trás egos inflamados, trás inveja. Pela frente são todos amigos, todos querem o bem de todos, pelas costas um quer ver o outro se dar mal, quer ver o fracasso do outro.

Tem gente muito boa hoje atuando na Luta Livre, artistas realmente bons, equipe séria e que aos poucos está sendo reconhecida fora do país, e tem gente muito ruim, não só ruim tecnicamente, ruim em egocentricidade, em maldade, querendo sempre se sobressair sobre os demais as custas de rebaixar os outros, e esse tipo de praga do mal está sempre proliferando. E por esses e outros motivos é que resolvemos nos afastar novamente desse mundo desejando boa sorte a quem segue de forma honesta nessa batalha.

Isso é uma despedida desse mundo, que me trouxe alegrias, mas muito mais decepções, onde gente que eu admirava e constatei que não passam de egos inflados, que não suportam a possibilidade de imaginar estarem velhos e que tem uma nova geração tomando seus lugares, e é uma pena ver esse tipo de pensamento, pois isso advém de gente de mente fraca e egocêntrica, gente em um nível muito inferior a grandes e verdadeiros ídolos da nossa Luta Livre Nacional, como Mister Argentina por exemplo, um perfeito exemplo para muitos de como ser uma pessoa digna, amiga e humilde. Com o brilhante documentário feito pelo Vini Nora mostrando um pouco mais das carreiras dos nossos verdadeiros artistas, salvo raras bostas que apareceram no documentário, mas que o diretor achou correto por fazerem parte da história da Luta Livre, o que não vem ao caso, dou por encerrado meu objetivo. Deixo novamente a Luta Livre para os seus verdadeiros donos, os artistas, mas quando digo artistas estou dizendo quem sabe fazer o show, quem dá show, e não pra moleques ou velhos sem noção que sobem no ringue e acham que fazem algo decente, e quando digo velhos, não estou desmerecendo a idade da pessoa, pois o saudoso Caipira Dom Afonso não era nenhum menino, e dava um show, enquanto tem outros que “empurram o show com a barriga”… se é que me entendem.

Passo agora para a cadeira de expectador somente, de fã da Luta Livre, e agora quem não sabe receber crítica, quem acha que é perfeito, que enfie as suas perfeições no bolso, que não estou me importando mais, assim como eles dizem que não se importam com a minha opinião, mas é só o MM dar seus pitacos que a Moóca cai do salto, né?

Sucesso aos de valor.

Agradeço ao meu irmão, Rodrigo Martins por ter me ajudado a criar esse projeto chamado TelecatchBrazil e ter estado do meu lado por um bom tempo á frente dele, mas até isso a Luta Livre me tirou. Espero um dia recuperar.

“Nós colhemos o fruto das verdadeiras amizades, nos terrenos mais pedregosos e ressequidos da vida.” 

6 Respostas para Luta Livre, uma arte cercada por egos… “o último a sair apaga a luz”

  1. Dan disse:

    Tenho que agradecer a vocês do TB.

    Mas realmente, quanto a LLN, acabou o tesão, ao menos fica a minha adimiração por todos vocês do TB.

    Obrigado. ATé logo.

  2. fábio gomes disse:

    Uma coisa que me deixa abusado no mundo da luta livre é o favoritismo grandissímo que os ditos “astros” do catch recebem , por vezes se torna absurdo . O cara nunca perde , luta com 100 e sempre acontece algo para que não perca . O que vocês do telecatchbrasil acham disso ?

  3. Cigano Stiner disse:

    Amigo Fábio
    No mundo do telecatch isto é assim mesmo, pois isto é um espetaculo e quem manda é o dono da equipe, ou empresa, ele é que forma seus idolos, seus campeões, suas estrelas na equipe, pois lembre sempre ..isto é show e o show de de tentar agradar a maioria do publico.
    Por estas razões é que eu digo sempre: Não existe campeão brasileiro, campeão sulamericano ou seja o campeão que for, mas existe sim o cara que tiver mais carisma, comprometimento profissional e que o “empresário” note isto e então fará dele um idolo, um campeão,pois tudo faz parte do show e aquele que ficar cantando marra de campeão(hoje) amanhã podera ser totalmente esquecido, se for o desejo do ” empresário” este é o mundo da Luta Livre ( telecatch) no mundo inteiro.
    Fique com Deus

  4. fábio gomes disse:

    Tem toda razão cigano , é isso mesmo !. É realmente uma pena que no mundo desse grande espetaculo seja realmente assim . Mas mais do que isso é o meu grande agradecimento e felicidade a sua pessoa pela atenção ao meu comentário . Um grande obrigado ,e, que Deus continui te abençoando !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.

  5. fábio gomes disse:

    Cara esse texto acima mostra uma realidade escondida para aqueles adimiradores expectadores que estão de certa maneira do lado de fora desse mundo . Pra gente que olha essa grande magia de espetaculo acha que é um mundo totalmente diferente . Verdadeiramente é uma pena que esse mundo de entreentimento espetacular seja assim , só quem está dentro é que sabe !. Verdadeiramente uma pena !.

  6. Flávio Pacheco disse:

    Valeu Martins!!!

    Agradeço pelo paciência e tempo desprendidos neste projeto chamado TelecathBrazil, obrigado pelas informações, vídeos, entrevistas, matérias!

    Tenho certeza que fui um dos leitores mais assíduos, infelizmente a vida foi me cobrando mais atenção a outras coisas e acabei não comentando tanto, nem por aqui, nem no facebook, mas desejo tudo de bom na vida para você e sua família.

    Se não concordei com tudo que fizeste ou escreveste, saiba que foi porque somos pessoas diferentes e você é uma pessoa bem autêntica e de temperamento marcante, o que entendo serem virtudes.

    Forte Abraço, “cabra vei”
    “Inté” outro dia!

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